segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

INSTRUMENTOS DE VER: O tempo e a vida anônima dos objetos

Espetáculo infantil Meu Chapéu é o Céu. Foto: Chocolate Fotografia

Brasília, 12 de dezembro de 2016

Coisas,

Essa carta é pra vocês, seres inanimados do coletivo brasiliense Instrumento de Ver. Fiquei lhes olhando durante o Arranha Céu, festival que comemorou os 15 anos do grupo. Eles usam de vocês sem saber que na verdade vocês também se usam deles. Nessa última semana, na Funarte, duas coisas me chamaram muito a atenção: vocês, Coisas, e o Tempo. Nós, mulheres e homens das cênicas, vamos partir, secar a água do corpo e virar pó. Vocês e o Tempo devem perdurar, quiçá vão desfrutar da existência bem mais que nós.

A gente, na nossa vã imaturidade, costuma esvaziar o real sentido de suas existências porque somos supostamente superiores. Nós: indivíduos “animados”. Na verdade, vocês são tão importantes quanto qualquer um que voa arranhando o céu – tanto que a maneira como vocês aparecem nos espetáculos Cabaré Noite Aérea, Por um Triz e Meu Chapéu é o Céu é tão forte que impressiona. Prêmio especial para a faixa amarela da atleta olímpica, para a maleável e dura Cora (corrente de 132 elos de metal galvanizado) e para o chapéu vermelho disputadíssimo entre as três molecas circenses.

Espetáculo Cabaré Noite Aérea. Foto: João Saenger
A gente costuma falar de um plano superior, como se as ideias estivessem acima de tudo, arranhando o céu, e nós aqui embaixo. Isso a partir da proposição metafísica que Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) lançou sobre o mundo. Compreender o mundo em cima daquilo que não é palpável. Mas as ideias estão fora de nós ou as ideias estão em nós? A gente inventou a mente, mas na verdade ela não existe. Somos um conjunto de conexões químicas e físicas que fazem nosso corpo pensar, conexões que inclusive criam a ideia de mente para facilitar a compreensão do mundo.

As ideias são corpo. E corpo é coisa real, é matéria. Se elas são matéria, são Natureza. Se são Natureza, é tudo, como bem fala Spinoza (1632-1677). E é essa totalidade que comunga os elementos da Natureza, que faz com que nós só existamos porque vocês, Coisas, existem junto. E o Instrumento de Ver parece que enxergou o potencial latente de vocês – tão incríveis quanto nós, humanos. Fiquei até curioso pra assistir o Geringonça, em que vocês também fazem parte com maestria, pelo que soube.

Coisas, agora peço licença agora para falar diretamente com o Instrumento de Ver.

Cabaré Noite Aérea. Foto: João Saenger

Queridos,

Sobre o Cabaré, fiquei refletindo acerca da “costura” entre os números. Alguns me apareciam com uma transição fluida. Outros eram encerrados de maneira mais dura, com um espaço entre o trecho atuante e o seguinte. Não distingui se isso era uma estratégia elaborada para tal ou se faltou um olhar com mais apreço a essas emendas. Alguns números exalavam mais energia, como o da Cora (Daniel Lacourt), outros menos.

Talvez seja necessário reorganizá-los para uma potência que nos eleve junto. Se após um número incrível vier um número mais “simples” e outro mais “simples” e outro ainda mais “simples” que os dois anteriores, o espectador pode despencar um cadinho por vez na relação de interesse com a obra. E a gente quer crescer junto com vocês. Sobre o número Milonguita, da Julieta Zarza, fiquei pensando: por que não projetar ao vivo? Pareceu que a escolha da projeção gravada era uma solução mais fácil. Foi possível enxergar um ganho enorme no espetáculo seguinte, com projeção ao vivo dos pés vividos de Beatrice Martis.

Espetáculo Por Um Triz. Foto: Divulgação

Sobre o Por Um Triz, o relato do acidente vivenciado por Beatrice faz a gente ficar envolvido duma forma tão bonita que em mim e nos pares que pude conversar, brotou um sentimento de compaixão e superação junto à atriz. A dor dela doeu em nós. Saber que ali temos uma história de vida sendo performada em vida pela que viveu a história e não apenas uma dramatização de uma personagem em cima de uma ficção, faz os olhos marejarem e a garganta engolir seco.

Sobre o Chapéu, que beleza a maneira como as três molecas lavadeiras (Maira Moraes, Julia Henning e Beatrice) interagem. Parece que enxerguei ali a concretude do Tempo. Afora a relação que minha memória fez com a palhaça suíça Gardi Hutter no espetáculo Joana D’Arppo – olha que ela é considerada uma das maiores palhaças do mundo.

Quando falo do Tempo é como quando escrevi um "artigo" sobre os 10 anos do Teatro Máquina (CE). Parece que vocês aprenderam a domar o Tempo pela consistência da pesquisa interdisciplinar que vocês encabeçam, pela irmandade que emana de vocês. Ter o Tempo assim, como hoje o grupo o tem, não significa um domínio com rédeas. Significa que agora é possível compartilhá-lo mutuamente conosco, sendo ele, o Tempo, tão importante quanto o grupo. É uma conquista, como se sem ele não fosse mais possível respirar. Agora que o Tempo do grupo chegou, é preciso que não o deixem ir embora. 

Vida longa ao teatro circense de vocês! 

Carinhosamente, 

Danilo.

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