sexta-feira, 5 de outubro de 2012

As temporalidades do Teatro Máquina















Danilo Castro – ESPECIAL PARA O POVO

Após sete anos da estreia original, o Teatro Máquina surpreende com sua nova versão de Leonce e Lena, de autoria do alemão George Bücher. O texto é apenas um mote para o grupo desvendar-se em uma grande brincadeira de possibilidades infindas. A espontaneidade do trabalho, mostra quão pretensiosamente despretensioso se encontra o grupo, que está prestes a completar uma década de trajetória - com seis espetáculos no repertório, além de esquetes e experimentos.

Entre as imagens pop-cintilantes e a música eletrônica, do novo trabalho, um contraste de arrematar os olhos nos é proposto. A fábula romântico-medieval de jovens prometidos em casamento é contada numa forma que ressignifica tudo que o texto indica. Ao fim da apresentação de estreia, que aconteceu na última quarta, 3, no Theatro José de Alencar, a diretora Fran Teixeira afirmou que pôde perceber o “tempo do grupo”.

Então fiquei pensando sobre essa afirmação. É um tempo de teatro que não é o “tempo de teatro” - agilidade, atenção e jogo - que a gente costuma reivindicar bobamente quando assiste a um espetáculo. É como se fosse o tempo literal, sem enfeites, mas ao mesmo tempo fora do tempo. Porque meio século de grupo, por exemplo, não significa meio século desse tempo que estou falando.

Acho que é o tempo de uma mãe com as crias, que dialoga só pelo olhar. É o tempo de gatinhos que se batem e se mordem com poucos dias de vida, ainda dentro da caixa. Gatinhos que apenas vivem por viver, sem saber que o tempo passa. Um tempo que dá pra ver, que a gente olha, enche os olhos e chora se as fofurinhas se separarem. A vida é o tempo ou o tempo é a vida, mas não dá pra medir, nem dizê-lo como estou tentando agora nessa divagação de temporalidades que o espetáculo me incitou.

Talvez se o grupo correr junto, rindo à beira do mar, sob um sol escaldante, possa entender o que estou dizendo. Ou então já entende há muito mais tempo do que imagino e nem preciso me fazer entender agora. Porque esse tempo não se narra, por mais que eu tente. O tempo para o grupo parece que não passou e que não vai passar. Porque o tempo do Máquina é o agora. E a cena cearense reconhece, agradece.

Eu, enquanto passeava entre as imagens anacrônicas do espetáculo, fiquei olhando para a diretora na plateia, vendo-a como uma mãe timidamente orgulhosa em mostrar o boletim dos filhos. O Máquina parece que aprendeu a domar o tempo. E tê-lo assim, como hoje o grupo o tem, não significa um domínio hierárquico, com rédeas. Significa que agora é possível compartilhar o tempo mutuamente, como se ele fosse tão importante quanto o grupo e não inferior, como se sem ele não fosse mais possível respirar. Agora que o tempo do grupo chegou, é preciso que não o deixem ir embora. 

SERVIÇO

Leonce e Lena
Onde: Theatro José de Alencar (rua Liberato Barroso, 525 – Centro).
Quando: Hoje e amanhã, às 19 horas. (* Dia 6 para convidados)
Quanto: R$ 5 (meia) e R$ 10 (inteira). 
Outras informações: (85) 8658 0246

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